Olha pro céu, meu amor.

Não é de hoje que eu sei que a minha visão de certas cidades é bem diferente da maioria. Quando eu penso em Paris, quando eu penso na França como um todo, não são os bistrots que me vem primeiro à mente ou gente elegante passeando por ruas elegantes. Não é a oportunidade de fazer compras mil. Não são nem os museus (que eu adoro) ou as catedrais (que eu adoro) ou a ideia de caminhar ao longo do Sena num fim de tarde ou qualquer coisa assim. O que torna essa cidade especial pra mim é a sua história. Eu me esforcei e entortei meu itinerário de tudo quanto era jeito pra estar na cidade para o 14 de julho, a fête nationale francesa, bastile day pros ingleses. O dia marca a queda da bastilha e o início da Revolução Francesa, o momento em que o mundo deu o primeiro passo para fora do pensamento arcaico e medieval, o momento em que o homem comum disse ‘basta’ e iniciou o longo e tortuoso caminho para algo melhor. Se eu pudesse escolher um momento da história para visitar… Foi violento sim, foi terrível até, mas também foi glorioso e nada nunca mais foi o mesmo. Em lugar nenhum.

Paris comemora o dia de várias formas. Na véspera, há festas pela cidade inteira. O dia começa com uma parada militar na Champs-Elysees e termina com festa nos gramados dos Champs de Mars, diante da Torre Eiffel. Eu não fiz nada com meu dia exceto admirar a Torre. Eu cheguei lá no meio da tarde e as pessoas já estavam se aglomerando. Algumas horas depois, era praticamente impossível se deslocar, tamanha era a multidão. O show de música começou por volta das 19h, ainda com sol forte e céu azul, e seguiu até o sol se por pouco antes das 23h. Foi quando tocaram a Marseillaise, levando todo mundo a ficar de pé. A Marseillaise sempre deveria ser cantada assim. centenas de pessoas em coro, com toda emoção de que são capazes, erguendo suas taças de vinho em celebração. Pouco depois disso, começaram os fogos de artifício. Eles iam durar mais de meia hora. O tema era ‘guerra e paz’, por conta do centenário do início da Primeira Guerra Mundial, e a combinação de fogos e música tentou retratar as duas guerras e a paz que finalmente seguiu. O show terminou ao som de Imagine, de John Lennon, seguido de parte da Nona de Beethoven e da Marseillaise uma vez mais. Os fogos de artifício foram um espetáculo sem igual. Tentavam ser criativos no início antes de finalmente deslanchar em algo mais familiar. Foi algo lindo e ainda me deixa sem palavras.

A França é um país complicado para mochileiros. O transporte não é tão em conta quanto no resto do continente e não há tantos hostels assim, ao menos nas cidades que eu queria conhecer. Minha primeira escala depois de Paris foi Mont St Michel, no norte do país. Uma pequena ilha (ou melhor, se torna uma ilha na maré alta) cuja vida gira em torno do monastério que ocupa o seu centro, é hoje o segundo lugar mais visitado do país, depois da capital. Não é difícil entender por que. Quilômetros antes de chegar nele, depois de passar por um trecho de estrada lotado de hotéis, de dentro do ônibus que é a única forma de transporte disponível até lá, o Mont já se torna visível no horizonte. E é uma visão majestosa. É também compacto o suficiente para que o viajante mais apressado se sinta confortável em passar apenas um dia por lá.

Do Mont St Michel, eu segui para Tours, no coração do Vale do Loire. Visitar o vale era um plano antigo, de maneira que eu tinha um conhecimento bem maior da região do que de outros lugares por onde já passei. O Vale é famoso como o “jardim da França”, com seus vinhedos e seus chateaux. Aqui também os custos me levaram a me apressar mais do que eu gostaria e eu me decidi (em retrospectiva eu teria feito diferente, mas paciência) por encaixar a visita a quatro castelos diferentes em um único dia. O chateau de Azay le Rideau é relativamente pequeno e talvez o menos interessante dos quatro; bem mais fotogênico foi Villandry, só que, nesse caso, os impressionantes jardins são a grande atração do lugar; depois do almoço cheguei em Chenonceau, que deve ser o mais popular das dezenas de castelos do Loire, também com belos jardins e interiores, mas marcante por ter sido construído como uma ponte sobre um rio (e por ter sido um presente do rei à sua amante); mas meu favorito foi o último, o enorme chateau de Chambord me parece de longe o mais belo de todo o vale e não ficou devendo nada às minhas (muito altas) expectativas.

A Tours se seguiram escalas rápidas em Bordeaux e Toulouse. Em Bordeux, apenas o tempo necessário para explorar um pouco do centro da cidade e matar as saudades de falar português graças a alguns novos amigos. Em Toulouse, nem isso. Minha passagem pela cidade se resumiu a uma noite mal dormida num hostel longe do centro. A única coisa que eu conheci da cidade foi seu sistema de trens. Mas tudo bem, o sul da França pode esperar. Eu estava contando os minutos para chegar na Espanha.

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