Vou apertar, mas não vou acender agora.

Eu me apaixonei completamente por Amsterdam. E eu não sou capaz de apontar o motivo exato, tanto quanto não sou capaz de descrever a cidade de forma que não soe clichê. Canais, Van Goghs, canais, Rembrandts, canais, igrejas, canais, bicicletas, mais canais, uma cerveja com amigos num dos infinitos bares que enchem as ruas ao longo de canais, sentar num banco e ver os barcos passando sob as pontezinhas enquanto um senhor se senta do seu lado e prepara um baseado… Talvez a beleza do lugar venha dos canais, ou talvez venha da arquitetura, ou das suas cores, ou de perceber que, por mais que você caminhe, jamais vai se deparar com uma colinazinha que seja… O ar de boemia e licenciosidade afeta mesmo quem não tenha interesse em fazer uso dessas licenças. É palpável e inescapável e, à sua maneira, lindo. É um dos poucos lugares que eu me arrependo de não ter passado mais tempo, até mesmo para conhecer o que os arredores da cidade tem a oferecer. Mas eu estava com data marcada pra atravessar um canal e ainda tinha algumas escalas no meu roteiro. Bruges, na Bélgica, era uma vontade antiga, em parte devido a sua fama como uma das cidades medievais mais bem conservadas do continente, em parte por representar a última parada do meu fanatismo por todas as coisas Michelangelo.  A segunda parte não decepcionou: a Madonna guardada na Onze Lieve Vrouwkerk é preciosa. Também foi a única obra dele a deixar a Itália durante a sua vida, foi roubada por nazistas durante a Segunda Guerra e retornada à cidade após a queda de Hitler, mas isso tudo é detalhe quase esquecido diante da graciosidade de mãe e filho. A primeira parte do que me trouxe à cidade já é mais ambivalente. Sim, a cidade é linda, preciosa, mas tem um ar um tanto artificial e um número insuportável de turistas. Foi o mais próximo que eu já cheguei de uma visita à Disneylândia. Mas valeu a visita, para apreciar algo que a Bélgica parece saber fazer como ninguém: fritas, cerveja, chocolates, waffles… Minha passagem por Bruxelas foi quase uma tecnicalidade. Apenas uma noite de descanso no caminho para o que viria depois (e por que eu estava tentando evitar o custo dos hostels ingleses nos fins de semana), mas, como é costume nessa viagem, eu ainda consegui ser surpreendido. Eu havia separado algumas horas para passear pelo centro da cidade e estava achando o lugar bastante monótono. Foi quando, numa demonstração de que é importante tomar cuidado com o que se deseja, eu virei uma esquina e me vi diante de uma parada gay tomando vários blocos da cidade. Música, fantasias, plumas, carros alegóricos, gente alegre em trajes econômicos e muita festa. Foi algo muito bonito de se ver. Eu finalmente encerrei meu dia no Museu de Quadrinhos, que não atendeu minhas expectativas. No dia seguinte, só me faltava pegar um ônibus e seguir rumo ao Canal da Mancha.

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