E sinto assim todo o meu peito se apertar.

Eu passei os últimos dias tentando pensar na melhor maneira de traduzir o que veio a seguir na viagem, mas chega uma hora em que é preciso apenas sentar e escrever e esperar fazer sentido, por mais difícil que seja. Não pela Cracóvia. Cracóvia é um deleite. A cidade antiga é uma das mais lindas que eu já vi, seja por sua praça central (que, por ser páscoa, estava fervilhando de atividades, com direito a barracas de comida e apresentações de música e dança), ou por seu castelo às margens do rio, ou pelo jardim que cerca seus muros por inteiro. Fora da área mais antiga, a tristeza da história mais recente da cidade ainda se faz sentir, sendo possível visitar o bairro judeu ou a fábrica de Oscar Schindler, hoje convertida em museu.

O que torna esse post mais difícil é que é possível pegar um ônibus de Cracóvia até a cidade de Oswiecim, mais famosa pelo seu nome alemão, Auschwitz. Depois de vários dias de sol, o dia em que eu e duas amigas australianas escolhemos para visitar os campos de concentração amanheceu escuro, frio e chuvoso, como para refletir o tom geral do dia. A visita se dividiu em duas partes. O primeiro campo de concentração, Auschwitz I, se situa dentro dos limites da cidade e é relativamente pequeno. É possível visitar os vários alojamentos que compunham o campo, a maioria deles convertidos em museu, e aprender em mais detalhe sobre tudo que se passou não só ali mas nos vários campos espalhados pela Europa. Fotos e estatísticas já são difíceis de tolerar, mas são coisas como pequenos montes de cabelos humanos considerados como evidências do que se passou ali que te derruba.  Não é uma experiência agradável e você se sente a beira do choro repetidas vezes ao se dar conta de tudo que um ser humano é capaz de infligir sobre outro por conta de alguma diferença imaginária entre os dois. Tão pungente quanto as exposições é andar por entre os alojamentos, passando por portões e torres de vigia. A chuva dava um ar ainda mais triste à tudo aquilo.

Mas o dia não se encerra em Auschwitz I. De lá, um ônibus gratuito não leva mais que dez minutos para chegar até uma área nos arredores da cidade, muito maior que a primeira, chamada Auschwitz II ou Birkenau. Dessa vez, não haviam prédios com exposições. As construções pareciam menores e mais espalhadas e tudo lá se mantem da maneira como era. A impressão é enganosa. Na verdade, grande parte do complexo (incluindo as câmaras de gás) eram subterrâneas e inacessíveis aos visitantes. Quem chega no campo, segue ao lado de trilhos de trem, visitando alojamentos pequenos e simples, compostos unicamente por longos corredores com dois níveis de balcões de madeira de cada lado, que pareceriam desconfortáveis para animais de fazenda e que serviam como dormitórios para os prisioneiros. Do outro lado dos trilhos, dezenas de pequenas chaminés saiam do gramado como periscópios. O momento da visita em que eu me dei conta do propósito dessas chaminés ainda me causa mau estar. Ao fim dos trilhos (e ao fim da visita, só nos restando pegar o ônibus de volta e tentar lidar com tudo aquilo), chega-se a um dos poucos pontos do campo que parece ter sido propositalmente demolido (a entrada para as câmaras) e um memorial que inclui quatro lápides que anunciam, em hebraico, polonês e inglês: “Em memória dos homens, mulheres e crianças que caíram vítimas do genocídio nazista. Aqui estão suas cinzas. Que suas almas descansem em paz.”

 

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