O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana.

Minha relação de amor e ódio com a China começou em Hong Kong. Embora a cidade tenha muito para ocupar um viajante por dias, não é uma cidade muito fácil no bolso e, por isso, minha passagem por lá foi rápida e teve razões práticas: conseguir um visto para entrar na China propriamente dita. Eu tirei um dia pra andar pelas ruas, visitar o museu de história, tomar um barco pela baía e admirar a (qual seria a palavra em portguês para) skyline da cidade, considerada uma das mais lindas do mundo. Só que tão impressionante quanto a vista dos arranha-céus da cidade foi ver a névoa que cobria a cidade, escondendo o topo dos prédios mais altos e tapando o céu por completo.  Parte disso, eu acredito, se devia ao inverno, mas a maior responsabilidade é da poluição que afeta todas as grandes cidades chinesas. Eu não sabia, mas ia levar mais de uma semana pra voltar a ver indícios de céu azul. Tirado o visto (mais caro do que eu acreditava que seria), eu atravessei a fronteira sem grandes problemas e passei a noite em Shenghen, mas sem me preocupar em explorar o lugar que, pelo que me parecia, apesar de importante centro econômico, não guardava tantos atrativos assim. Da janela do hostel, só se via o contorno dos prédios mais próximos em meio ao cinza.

Cedo no dia seguinte, eu segui para Chengdu, cidade bem mais agradável, embora também cinza. Chengdu tem uma praça central vasta e suntuosa, com fontes d’água, esculturas, cercada por largas avenidas e uma enorme estátua de Mao de braço erguido no que eu decidi interpretar como uma saudação de “High five, bro!”, cercada de flores, observando a tudo e todos. Há alguns blocos, visitei um parque em busca de tranquilidade para descobrir que, no país mais populoso do planeta, você nunca está sozinho. O parque atraia toda sorte de atividades, de grupos de jovens brincando a grupos de senhores e senhoras cantando algo que soava solene a um senhor escrevendo uma mensagem no chão que era pisoteada pelos passantes segundos depois a grupos de dança e teatro. Tranquilo não foi, mas foi uma tarde e tanto. Mas o motivo que atrai todo mundo a Chengdu é o Centro de Reprodução de Pandas Gigantes perto da cidade, um dos poucos do mundo. Num dos meus melhores dias, uma visita ao Centro permitiu observar os cuidados que dezenas desses animais recebem desde o berço até a idade adulta. Alguns poucos deles permaneciam em jaulas isoladas dos demais, mas a grande maioria, pequenos e grandes, dispunha de amplo espaço e aparentava ser muito bem tratada. Se todo zoológico fosse assim… Pandas existem em número tão pequeno hoje que quase não são encontrados fora de cativeiro e só podem ser vistos em poucos lugares do mundo. A melhor lembrança fica por conta de admirar a convivência dos pandas mais jovens num comportamento que variava constantemente entre a brincadeira, a briga, a disputa e a brincadeira de novo.

As primeiras impressões da China foram de um povo não muito caloroso, ainda que eu tenha me deparado com lindas exceções à regra. Por terem se mantido fechados ao ocidente por tanto tempo, há muitos aspectos do país que são diferentes de tudo que eu encontrei antes: as pessoas raramente falam inglês, até mesmo a comunicação não verbal que tanto me salvou em outras ocasiões se mostrava menos eficiente, como se até o gesto mais universal não possuisse significado aqui; também não passava um dia em que alguém não pedisse (depois de se encher de coragem para se aproximar) para tirar uma foto comigo, que adquiria um status de quase-celebridade simplesmente por não ser chinês; finalmente, a escala de tudo ao meu redor, a altura dos prédios, a quantidade de pessoas nas ruas, as gigantescas propagandas ocupando as laterais de prédios e a paixão que os chineses parecem ter por iluminação excessiva me fazia pensar constantemente em cenas de Blade Runner. E a viagem só estava começando.

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