Como se o vento de um tufão arrancasse meus pés do chão.

Bali é qualquer coisa de sublime. É difícil de explicar. Minha chegada na ilha foi um tanto tumultuada, depois de umas dores de cabeça no aeroporto de Phnom Penh e de correrias no (gigantesco – uma pessoa podia passar férias lá dentro) aeroporto de Cingapura. Eu cheguei já tarde da noite e de pronto já tive que lidar com uma das dificuldades da ilha, o transporte. Para distâncias grandes, como a do aeroporto em Denpasar para a cidade de Ubud, táxis são a única opção viável e eles sabem disso, elevando preços mais do que o bom senso permitiria. Eu já sou macaco velho e não foi difícil arranjar quem rachasse um táxi, o que acabou sendo uma grande sorte, já que o hostel em que eu reservei se provou impossível de encontrar e eu terminei passando minha primeira noite no mesmo hotel do casal de alemães que dividiram a corrida comigo.
Eu não devia dizer ‘hotel’. Isso passa a idéia de apartamentos apertados e longos corredores cheios de portas idênticas. As residencias em Bali são conjuntos de pequenas casas espalhadas em meio a belos jardins. Por ter chegado a noite, eu não notei nada disso ao ser levado a meu quarto. Pela manhã, ao abrir a porta do quarto, eu pude perceber pela primeira vez toda a beleza que me cercava, entre árvores, piscinas, esculturas, campos de arroz a distância num tom de verde que eu nem imaginava que existia fora de contos de fadas. Depois eu fui descobrir que isso não era uma característica desse hotel, mas quase regra geral para os alojamentos da ilha.
Eu relato a confusão com os hotéis por que o resultado foi um dos melhores imprevistos da viagem inteira. O lugar em que eu passei a noite, embora longe de caro, era três vezes o preço do dormitório que eu reservara e mais do que eu desejava pagar a longo prazo, de maneira que lá fui eu tentar encontrar o hostel uma vez mais, dessa vez a luz do dia… e mais uma vez eu fracassei. Terminei por dar de ombros, entrei na primeira rua por que cruzei e entrei no primeiro homestay (uma combinação de pousada com residência), perguntei sobre o preço de um quarto, que era só ligeiramente mais caro do que meu hostel, mas era privado e bastante espaçoso e fiz dali o meu lar pelas próximas semanas. Não poderia ter escolhido melhor se tivesse planejado.
Ubud é o centro cultural da ilha e a melhor opção de estadia para aqueles que, como eu preferem dias tranquilos com eventuais visitas a outras áreas da ilha. A outra opção seria me hospedar mais ao sul, em Kuta ou Seminyak, famosas pela vida noturna agitada e pelo surf. Caminhando pela cidade, um visitante se depara de novo e de novo com esculturas e pequenos templos. Ganesha, como sempre, é bastante popular. Todas as casas tem pequenos templos logo na entrada, alguns deles belíssimos, e, todos os dias, oferendas aos deuses em forma de pequenas bandejas de folhas, contendo flores, arroz, sal, etc, são espalhadas na base das portas, diante de estatuas e ao longo das calçadas. Um dos detalhes mais curiosos de um lugar repleto de detalhes curiosos foi perceber que muitas das estátuas da ilha tinham sarongs enrolados na cintura. Desconfiando do motivo, eu perguntei a um local a respeito e ele, após uma risadinha, confirmou o que eu já supunha: é preciso cobrir as partes íntimas das estátuas. O que me fez lembrar da Índia.
De Ubud, mais central, foi relativamente simples visitar o resto da ilha, como os templos de Uluwatu (um templo no topo de um penhasco com o mar logo abaixo), Ulun Danu Bratan (um templo em um plácido lago numa das regiões mais altas da ilha) e Tanah Lot (também na costa, construído num rochedo que se torna inacessível a pedestres na maré cheia), entre outros menores; a cidade de Denpasar e seu museu; algumas áreas de floresta; algumas praias; além de terraços e terraços e terraços de arroz. À noite, todos os dias traziam opções de performances de dança e teatro, que estão entre as melhores coisas que presenciei na ilha, ainda que não houvesse dúvidas de que era algo feito para turistas e que, depois de ver um ou dois, era impossível não perceber que a variação de conteúdo não era tão grande assim, apesar dos seus diversos nomes.
A ilha tem seus problemas, sem dúvida. O turismo é intenso e maior do que Bali é capaz de absorver, o que resulta em um trânsito caótico, em comerciantes desagradáveis, numa estrutura de tours organizadas e em se ter que recusar ofertas de táxis a cada trinta segundos. Mas não tira o encanto. Não tira o encanto da ilha ou das pessoas. O clima foi outro grande personagem da minha passagem por Bali. Eu sabia que fevereiro, se não era o auge da estação chuvosa, ainda estava longe de ser a época ideal para se visitar, e de fato choveu bastante, mas de uma maneira que não comprometeu meus dias em nada e, em certo sentido, os tornou ainda mais adoráveis. Via de regra, a chuva se limitava a uma meia hora de precipitação forte ou no início da manhã ou ao fim da tarde. Chegava sem aviso nenhum e o céu ia da total tranquilidade para um temporal em questão de segundos. Quando o momento chegava, eu sentava à varanda e apreciava maravilhado a água lavar o dia e intensificar ainda mais aquele verde todo. Eu não queria ter ido embora. Eu não queria ter ido embora. Eu não queria ter ido embora.

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