Como a pluma que o vento vai levando pelo ar.

Parece que a maneira mais fácil para uma pessoa entender o que o natal significa para ela é quando ela se vê sem ter como ou com quem comemorar. Não há luzes nas praças, nem decorações nas varandas, nem correria nas lojas. Não há planos de rever parentes, nem troca de presentes, nem filmes de natal na tv. Eu passei por um poster de “feliz ano novo” numa praça de Bangkok só para depois descobrir que ele fica ali o ano inteiro. Eu não faço questão da decoração e a idéia de um sujeito vestindo aquele casaco vermelho e uma barba pesada de algodão no meio do verão era incomoda de qualquer maneira. Mas eu senti necessidade de baixar “os fantasmas contra-atacam”, eu tenho andado com músicas natalinas na cabeça o dia inteiro e, mais do que qualquer coisa, eu tenho sentido falta da família. (E Claudia, Anderson, Amanda, Déia, Euzamar, Marília, Valéria, se vocês não se tocarem que isso também inclui vocês, eu vou ficar ofendido). Não importa quanto tempo passe, o natal sempre me remete à infância. Minha imagem do natal é – e imagino que sempre vai ser – a da família junta em Recife, no apartamento de minha avó, eu com meus dez anos, esticado no sofá assistindo desenho animado na tv (algum especial de natal dos smurfs ou he-man que eventualmente terminaria com o esqueleto descobrindo o verdadeiro significado do natal) enquanto a casa é agitada com a preparação da ceia, visitas indo e vindo ao longo do dia, telefonemas de familiares ausentes e a antecipação de brinquedos, brinquedos, brinquedos. Por conta dessa imagem, o natal também é quando eu melhor percebo a passagem dos anos. É quando eu mais gostaria de rever minha vó Inês e minha tia Leninha. É quando eu me lembro de meus irmãos quando eram crianças e sou tomado por surpresa e orgulho em ver os adultos que eles se tornaram. É quando eu consigo enxergar meus pais de forma mais clara, mais verdadeira, em tudo que eles significam pra mim, e de repente parece que a única coisa maior que meu amor por eles é o amor que eu sei que eles tem por mim. Hoje, quando eu olho para natais passados, eu não sou capaz de lembrar desse ou daquele presente, se a família se reuniu nessa ou naquela casa, mas eu lembro do primeiro natal de que a Gabriela participou. E não é preciso um grande esforço de memória pra lembrar do primeiro natal do Gustavo. É uma forma tão mais bela de se marcar o tempo. Que me importa se mudamos de milênio uns tempos atrás? Mais marcante é que o meu natal agora inclui Henyos e Adrianas, inclui Anas e Tales, inclui Milenas, inclui Gisas, inclui Mários, inclui Terezas, Ezequias, Danielas, Gabriéis. Presentes ou não. Meus natais agora tem Caculinas. Não faz diferença se estamos os dois passando o natal num hotel em Puerto Iguazu conversando com o dono do lugar num portunhol estranho ou se há oito horas de diferença entre nossos fusos horários. Ela está sempre aqui comigo. E isso dá cabo de qualquer solidão que poderia me afligir. Meus natais agora tem Juliernes. Tem Priscillas e mais Priscillas. Grandes estoques de Jéssicas. Klebers e Lucianos até dizer chega. Tem mais Natálias e Lauras do que há camelos no deserto. E é aí que eu me dou conta, em terceiro lugar, de que eu nunca estou sozinho; em segundo lugar, que a minha família é muito maior do que eu poderia sonhar; e, em primeiro lugar, que desejos de um feliz natal chegam a ser redundantes. Como meus natais poderiam ser outra coisa, senão felizes?

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