Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento.

E aí eu cheguei em Nova Delhi. Que, se tem todos os problemas esperados de uma cidade grande com uma população ainda maior do que é capaz de suportar, ao menos tem a personalidade que falta a Mumbai e muita história pra contar. A Tumba de Humayun, por exemplo, é vista como um antecessora do que viria a ser, mais tarde, o Taj Mahal. E o Forte Vermelho, se não é tão bem conservado como outros do país, ganha significância quando se pára pra pensar que foi ali, no seu principal portão, que se asteou a bandeira indiana pela primeira vez, marcando o fim da ocupação britânica. Ocupação , aliás, que deve ser parcialmente responsável pelo ar europeu que certas áreas da cidade ainda conseguem manter apesar do tráfego insano.
Se as outras cidades por que passei revelavam uma Índia de séculos passados, Delhi (apesar de milenar) evidencia uma história mais recente. Assim como Brasília é obsecada por JK, Delhi o é por Mahatma Gandhi. Que é bem mais digno de reverência, sem dúvida, mas há um certo exagero na maneira como isso se dá que me desagradou bastante. Um dos lugares mais visitados da cidade é Gandhi Smriti, um museu que ocupa a casa em que Gandhi passou seus últimos meses de vida e onde se deu seu assassinato. O museu é interessante, narrando a vida do Mahatma por meio de fotografias, maquetes, exposição de objetos pessoais, dos aposentos que foram mantidos como eram durante sua vida, mas também há esculturas, grandes murais com fotos imensas e quando você sai do museu e caminha pela área aberta, a trilha se separa em duas, lado a lado. Uma é destinada aos visitantes, a outra é ocupada por marcas de pegadas, caminhando até certo ponto onde foi ocorreu o assassinato. As pegadas marcam os últimos passos que ele deu… e aí eu me senti como se estivesse em Jerusalém de novo.
É aí que a coisa desanda pra mim, por que eu sei o que vem em seguida. Homenagear uma pessoa que teve tamanha importância na história do país é compreensível, é louvável. Tentar santifica-la e criar uma imagem de alguém perfeito, acima de qualquer mazela a que nós, mortais, estamos sujeitos, traz junto aquele fedor religioso tão conhecido. Não me resta dúvidas de que nomes como Jesus ou Maomé passaram pelo mesmo processo, indo de pessoas extraordinárias, mas reais, falíveis e humanas, para a idolatria vazia que se vê hoje. Isso me parecia ainda mais importante de ressaltar por minha passagem por Nova Delhi ter coincidido com o falecimento de Mandela e pelo início de mais uma santificação.
E o pior é que ninguém parece entender que lembrar da humanidade de Gandhi ou Mandela (ou Jesus ou Maomé) não diminui seus feitos, mas os amplifica. Por que torna mais difícil a frequente atitude de “ah, Gandhi era perfeito, como ele nunca vai haver outro” e abre caminho para a atitude de “Gandhi foi uma pessoa incrível e fez tanto por seu povo… agora é minha vez.”

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