O início, o fim e o meio.

Varanasi… Varanasi é… Onde está Adriana Falcão quando se precisa? Varanasi é o que nós temos de melhor e de pior, é a consciência humana em forma de cidade. Caminhe por alguns minutos e você vai ter passado por uma dúzia de cães sem dono, um sem-número de vacas preguiçosas, um macaco aqui e ali saltando entre os muros e algumas das cenas mais pungentes de miséria humana que já presenciou. Vai ter pisado (ou, com alguma sorte, evitado pisar) em poças de água suja, lixo, fezes e sangue.
Desça a longa escadaria (uma das dezenas de ghats ao longo do rio), chegue às margens do Ganges e você vai ver, de um lado, um grupo de mulheres lavando roupas, batendo-as contra as rochas; de outro, homens quase nus e mulheres completamente vestidas se banhando nas águas entre gestos solenes; um pouco afastados, você vai notar focos de fumaça saindo de um dos dois ghats destinados à cremação de cadáveres, cujas cinzas são depois jogadas no rio; e, no meio disso tudo, pessoas de todos os lugares procuram um canto onde meditar em meio ao caos e visitantes em barcos tiram suas fotos.
Varanasi é uma cidade sagrada para os hindus e uma das cidades (continuamente habitadas) mais antigas do mundo. O Ganges é o rio sagrado da religião. Isso significa que, desde sua nascente mais ao norte, por onde o rio passa, ele é objeto de adoração. Ter seu funeral no Ganges, tomar banho no Ganges, usar a água do Ganges para toda sorte de finalidades é algo rotineiro. Quando chega em Varanasi, o rio já leva consigo tanta sujeira que apenas um louco entraria nas suas águas. Mas, como sempre, loucura e religião andam de mãos dadas.
Em Varanasi, o resultado é essa cacofonia, que sobrecarrega os sentidos do recém-chegado. Mas eu falo sério quando digo que essa cidade é um reflexo do coletivo humano, por que, se a sujeira, a miséria e o fervor religioso te fazem querer sair correndo, ao mesmo tempo essa mistura de pessoas dos mais diversos lugares, em seus trajes multicores, algumas cantando, outras sorrindo, algumas falando sozinhas, outras juntando coragem para mergulhar na água fria, algumas perdendo seus olhos no horizonte enquanto o sol vai nascendo, outras encontrando a paz de olhos fechados, tudo isso vai aos poucos adquirindo uma grande beleza ao observador.
Ou, mais exatamente, aos poucos, você começa a notar a beleza que sempre esteve ali a sua espera. E, por uma fração de segundo, você entende a raça humana com uma clareza como nunca sentiu antes. Em suas melhores qualidades e mais tristes mazelas. Você entende por que nós nunca vamos dar certo como raça, mas você se dá conta de que não há nada de tão errado nisso. Só que, passado o momento, você deixa a compreensão escapar pelos dedos. Passado o momento, você esquece no que pensava e se resigna a olhar por onde anda. E, por pouco, você não pisa em bosta de vaca.

Uma opinião sobre “O início, o fim e o meio.

  1. Oi amigo, excelente seu relato, to emocionado aqui e rindo . A gente pode mesmo contemplar a beleza da vida , do mundo e da gente mesmo mas cuidado por que se esquecer de olhar pro chão um hora pisar em bosta.

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