Mas com palavras não sei dizer.

As próximas duas escalas da viagem tinham duas coisas em comum: primeiro, eram cidades cuja vida girava inteiramente ao redor de uma única “atração” e do turismo que ela gera; e segundo, em ambos os casos, essa “atração” era diferente de qualquer coisa que eu já vi na vida.
Agra fica a três horas de Jaipur (e há três horas de Nova Deli, que, por hora, eu ia ignorar). Está longe de ser uma cidade bonita e jamais atrairia as multidões que atrai se não fosse pela sua proximidade de um certo Taj Mahal. Eu desci do trem, ignorei a cidade por completo e me hospedei em um dos vários hotéis que cercam o palácio de mármore branco que Shah Jahan construiu em memória de sua esposa favorita. Na manhã seguinte, logo cedo, quando a multidão ainda não é tão grande, basta uma curta caminhada e eu me vejo mais uma vez diante de algo tão belo, tão “maior que a vida”, que meus olhos se prendem nele como mariposas para a chama e se arregalam para tentar dar conta do que vêem.
O Taj Mahal não é tão grande assim. Seu interior é relativamente simples, não contendo mais do que os túmulos do casal, e eu pude ouvir comentários decepcionados de alguns visitantes. É o que eu chamo de efeito Monalisa. O visitante pobre de espírito costuma associar importância à tamanho, imaginando que a fama de uma obra tem relação com suas dimensões. Daí, ao se deparar com ela, se decepciona com o que vê e aplica a interpretação inversa: se não é tão grande quanto eu achava, também não é tão importante. Trata-se, é claro, de um pensamento estreito, tacanha e absurdo. Os melhores perfumes estão nos menores frascos. E estar ali diante do Taj Mahal tinha um quê de surreal, de onírico, de sublime, e mesmo dias depois lembrar disso ainda traz arrepios à pele.
De Agra, eu fui para Khajuraho. Dentre as cidades do meu itinerário, Khajuraho provou ser a mais afastada dos grandes centros urbanos. Isso significou duas coisas: uma falta de infra-estrutura ainda maior do que o já questionável padrão indiano; e um maior contato (indesejado) com a fauna local. Meus poucos dias por lá envolveram opções bastante limitadas para refeições, assédio de vendedores maior que o normal, sapos saltando da privada para dentro do quarto e grandes aves barulhentas nos seus gritos e nas suas tentativas de arrombar minha janela toda manhã.
Dito isso, foi em Khajuraho que eu me deparei com algo verdadeiramente original. O motivo de incluir a cidade no meu roteiro se deve ao seu complexo de templos, que seriam impressionantes de qualquer maneira, mas que se tornam extraordinários pelo frequente uso de imagens eróticas em suas paredes e esculturas, lado a lado com os deuses mais reverenciados do hinduísmo. Não há nada como isso em nenhum outro lugar do mundo. Os locais, tentando simplificar as coisas para os turistas, hoje chamam as construções de Templos Kamasutra, e as estátuas denotam as mais variadas formas de relação sexual, incluindo bestialismo.
Parte do meu fascínio com o lugar vem, como eu disse, de sua originalidade. Parte vem da inevitável comparação de uma cultura que enxergava o sexo como algo a ser celebrado com a atual hipocrisia das grandes religiões e, por consequência, da sociedade como um todo, a ver o sexo como tabú, algo feio, errado e vergonhoso que não se deve se discutir em público. É especialmente perturbador comparar a atitude de tempos idos com a Índia atual, um país machista, conservador e atrasado, à parte qualquer temporário boom econômico.

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