A Tonga da Mironga do Kabuletê.

Jaipur é uma arca de Noé. Eu suponho que faça sentido que, num país em que opostos coexistem lado a lado, minha cidade favorita também tenha deixado uma lembrança tão triste. É uma cidade fácil de se gostar. Embora os problemas de qualquer cidade indiana se façam presentes, Jaipur nem precisaria de seus palácios, mercados e templos para conquistar um visitante. As muralhas que lhe dão o apelido de cidade rosa; as ruas amplas por onde passam carros, tuk-tuks, charretes, camelos, cavalos, vacas; os cães, bodes e porcos que lotam as ruas menores; tudo que em outras cidades é apenas caos, em Jaipur se converte em carisma.
Meu primeiro dia foi passado no centro da cidade, onde se encontram o Palácio da Cidade, o Hawa Mahal e o Jantar Mantar, museu ao ar livre que reúne uma coleção de relógios solares. Mas foi o segundo dia que deixou impressões mais profundas.
Há alguns poucos quilômetros da cidade, está o Forte Amber, o mais impressionante dentre uma meia dúzia de fortes/palácios espalhados pela região. Próximo ao forte, no topo de uma colina, o Templo Galwh Bagh, vulgarmente conhecido como Templo Macaco (eles estão por todos os lados, às dezenas), é uma parada conveniente e oferece uma linda vista da cidade ao por do sol.
Já era fim do dia quando o taxista me pergunta se eu tinha interesse em andar de elefante. Não, eu não tinha. Eu sabia que esses animais não eram muito bem tratados. Ao menos, minha cabeça sabia disso. Mas, na esperança de mudar minha idéia, o motorista me convenceu a ao menos ver os elefantes. Poucos minutos depois, ele pára o tuk-tuk em frente a um galpão e eu não conseguia entender por que estavamos enrando ali se iamos ver elefantes, que eu imaginava que estariam ao ar livre.
Pois bem, lá estavam dois deles, dentro do galpão, acorrentados nas quatro patas, incapazes de mover as patas mais que uns poucos centímetros. Um tinha o rosto pintado, o outro tinha a pele do rosto marcada e descascada por o que eu presumo serem anos de pintura diária para alegrar turistas. Pela manhã, eles são levados até o Forte, levando e trazendo grupos de pessoas. Pela tarde, eles são presos e exibidos para aqueles que, por algum processo de percepção seletiva, são capazes de presenciar aquela cena, achar lindos os animais e não notar nada de errado com o estado deles. Eu fiquei ali, parado na frente de um deles, olhos nos olhos, sem palavras, com vontade de lhe pedir desculpas. Um dos homens no local insistia que eu podia toca-lo se eu quisesse. Eu não queria. Eu queria sair dali o mais rápido possível. E quando eu saia, um casal acabava de entrar e apontava o elefante para a filha pequena, que sorria.
Eu não sei bem o que eu esperava. Eu sabia que eles não iam estar soltos e livres para ir aonde quisessem, claro. E eu não sei até que ponto eu tenho o direito de criticar pessoas que estão tentando ganhar um pouco de dinheiro da única maneira que encontraram. Não é que eles tirem algum prazer em maltratar animais, eles simplesmente não levam seu bem estar em conta. O despertar de uma “consciência ecológica” que o ocidente experimentou a partir dos anos 70 ainda não chegou por aqui. Assim como eu já presenciei em outros lugares (camelos e cavalos no Egito, para citar apenas um exemplo de algo que tem sido uma constante nessa viagem), esses animais são tidos como meios para um fim, são uma forma de ganhar a vida, são instrumentos para se usar e dos quais se abusar. E isso assusta.

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