Pra fora e acima da manada.

O ônibus para Udaipur parecia ótimo, à primeira vista. Com camas no lugar de poltronas, eu me sentia como um grande fichario em que você abre uma das gavetas, entra e deita. Mas me agradou por uma dificuldade que eu sempre tive de dormir sentado. O primeiro revés foi perceber que eu não cabia no compartimento sem flexionar os joelhos pra cá e virar a cabeça pra lá e… mas tudo bem, dava pra me acomodar tranquilo e a noite teria sido até confortável se não fosse pelo segundo revés: cada um daqueles pequenos compartimentos se destinava não a um, mas a dois passageiros. Mal eu havia me instalado e chega meu companheiro de viagem. Vê-lo se adaptar tão bem à situação me ajudou a entender o que se passava: indianos, via de regra, são baixos em estatura e magérrimos. Para ele, aquele espaço era enorme. Para mim, foi uma noite desconfortável. Mas eu já tive outras. E assim eu entrei no Rajastão.
Udaipur, que já foi capital de império antes de trocar de mãos sucessivas vezes, não vai entrar pros registros como a minha cidade favorita, ainda que seja bem mais manejável que Mumbai e tenha lá a sua beleza. O destaque do lugar está no palácio da cidade, um grande complexo de câmaras, corredores e jardins, expandido sucessivas vezes ao longo dos séculos; e nos lagos que valeram à cidade o exagerado apelido de Veneza do Leste. A cidade também conta com alguns templos que, por estarem entre os primeiros que eu vi na Índia, eram diferentes de tudo que eu já havia visto até então. E nomes como Shiva, Ganesha e Krishna começaram a fazer parte dos meus dias. De resto, é um amontoado de hotéis, cada um com restaurantes turisticos no terraço, com belas vistas e comida deixando a desejar. Esse modelo vai se repetir outras vezes na Índia, onde tesouros de grande beleza estão sempre rodeados por sujeira e miséria e confusão. E vacas, vacas, vacas por todos os lados, sem serem incomodadas senão pela ocasional buzina para tentar incentiva-las a sair da frente dos carros e tuk tuks, cujos motoristas, eu pude observar mais de uma vez, se dão ao trabalho de diminuir a velocidade o bastante para carinhosamente tocar a testa do animal.
Também os Indianos começam a formar um padrão de comportamento. Eu ainda encontro aqueles vendedores ansiosos por tirar vantagem do turista incauto, mas a Índia é o primeiro lugar da viagem onde eu posso afirmar ter encontrado genuína hospitalidade, refletida não somente na recepção de hotéis, algo que já é esperado, mas nas pessoas na rua. Já pedi informações que terminaram em caronas até onde eu desejava chegar, almocei com pessoas para depois descobrir que eu estava proibido de pagar a conta e, para minha estranheza, tive pessoas me abordando para tirar fotos comigo. O único revés é uma impressão muito forte que as coisas seriam bem mais difíceis para mim se eu fosse do sexo feminino.
Há lugares dignos de visita fora dos limites da cidade, mas parece que a mudança do calor de Mumbai para o frio de Udaipur cobrou seu preço e uma gripe me derrubou por uns dias. Mas agora eu tinha passagens de trem para Jaipur, que eu estava bem mais ansioso para conhecer.

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