Por toda selva do meu ser, nada ficou intacto.

Depois de Nápoles e Sorrento, eu inverto direção e rumo norte para Florença. Outra das três cidades italianas que eu já havia visitado, ela mexe comigo de forma ainda mais forte que Roma (e não somente por conta de uma ligação remota entre a cidade e meu sobrenome). Essa é uma cidade em que a arte não está guardada em museus, apesar de ter alguns dos melhores museus do mundo. Ela está no violinista tocando na esquina e no artista usando o chão de uma rua de pedestres como tela. Num momento, se está jantando na frente de um restaurante e vendo a vida passar e, no seguinte, música e bolhas de sabão tomam a calçada e você se torna plateia para algo lindo sem mover um músculo.

De novo, Michelangelo é uma grande parte dos meus dias. Se em Roma eu sabia aonde ir para encontra-lo, em Florença ele está por toda parte. Não se trata somente de visitar a Capela Sistina. Michelangelo nasceu naquela casa, cresceu nessa rua, estudou com aquele artista, teve um ateliê nesse prédio. O mesmo vale para Dante, Machiavel, Galileu. Vinci, cidade natal de um certo Leonardo, é logo ali. A Lucca de Pucinni é acolá. E, é claro, há os Medici. Mesmo passados séculos desde os dias de glória da cidade, que já foi o centro econômico e cultural do continente, não é difícil entender o que significava ter nascido “à sombra do Duomo”.

Minha intenção foi dividir a semana em duas partes, dedicando a primeira à Florença e a segunda, usando Florença como base para conhecer outras cidades da Toscana. Assim, os primeiros dias se preencheram sem esforço: Accademia, Uffizi, Bargello, Palazzo Pitti e os Jardins Bobolli, Palazzo Vecchio, Duomo, Campanile, Batistério, Santa Croce, Santa Maria dela Novella, San Lorenzo, Santo Espírito, Capela Medici, Capela Brancacci, Casa Buonarotti, casa de Dante, Piazza della Republica, Piazza della Signoria, Piazzale Michelangelo. Dias de Chianti, pizza, spaguetti e gelato.

Em meu quarto dia, Lucca.  Em meu quinto dia, San Gimigniano. O plano era dedicar todo meu dia à cidade de Lucca, à uma hora de Florença, e ignorar sua vizinha mais famosa e inclinada. O horário dos trens, no entanto, me fariam chegar em Lucca mais cedo se eu fizesse uma escala em Pisa. Uma escala bem rápida diga-se: um pequeno passeio, fotos tiradas e pronto. Mais que a torre inclinada, chama a atenção a multidão de turistas enfileirados fazendo exatamente a mesma pose de “ó mãe, tô empurrando a torre!’. Suspiros.

Tanto Lucca quanto San Gimigniano encantam o recém-chegado e é gostoso passear por uma cidade em que turistas não tomam cada metro quadrado. Bem, não nos mesmos números que Florença. Minha principal impressão de ambas não foi uma surpresa: deve ser ainda mais delicioso de se passear nas primeiras horas da manhã ou à noite, quando a enxurrada de day-trippers vai embora. Eu não teria condição de passar a noite em cada lugar, mas eu queria faze-lo ao menos naquela que me diziam ser uma das cidades mais apaixonantes da Itália.

Por isso, ao final da semana, eu coloquei a mochila nas costas e peguei um ônibus pra Siena.

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