É preciso estar atento e forte.

Tempos atrás, eu ouvi uma história sobre dois jovens escoceses que faziam uma viagem pelo campo quando se viram diante de um muro bloqueando seu caminho. O muro era alto demais e extenso demais e parecia tornar impossível qualquer chance de escala-lo ou circunda-lo. Os jovens então atiram seus pertences para o outro lado do muro, de maneira que não restasse qualquer escolha exceto atravessa-lo. O processo necessário para decidir por onde recomeçar a viagem foi algo tão tortuoso que eu não sei se seria capaz de colocar em palavras. Eu não acreditava que meu orçamento estava preparado para sobreviver à Europa ou à América do Norte, a meteorologia tirava o Oriente Médio de questão, a distância e a época do ano descartavam a Ásia… Eu finalmente deixei por conta dos preços de passagens aéreas e terminei tendo Roma como primeiro destino, me restando agora o desafio de viajar pela Itália com algo na faixa dos cinquenta euros por dia.

Foi assim que eu entrei num avião na última quinta-feira, fiz uma escala rápida em Madrid nas primeiras horas de sol da sexta-feira e cheguei na capital italiana ao meio-dia. Infelizmente, minha mochila não fez o mesmo trajeto e, depois de reclamar com deus e o mundo no aeroporto, eu me vi indo para o hostel, no calor do agosto romano, com nada além da roupa do corpo e minha mochila pequena, que sempre vai como bagagem de mão e que incluía itens como notebook e câmera, mas nenhuma peça de roupa e nenhum artigo de higiene.

Acho que pouca coisa seria capaz de me abalar tanto nessa viagem quanto me ver sem minha mochila. Na rotina da viagem, ela é a minha casa, carregada nas costas como um caracol carrega sua concha. Perde-la afetava meu senso de equilíbrio. Eu até poderia lidar com a falta temporária dela se sentisse a certeza de que a teria de volta, mas a atitude que eu teria no Brasil de telefonar incontáveis vezes por dia a quem de direito até que minha bagagem fosse recuperada não parecia se aplicar aqui. O próprio hostel parecia bem tranquilo a respeito, garantindo que isso é parte da experiência de se estar na Itália e que tudo estaria bem em alguns dias.

Bem, foram dois dias me restringindo às atividades mais necessárias (leia-se comer e comprar substitutos de tudo que não podia esperar o retorno da mochila) andando pelas ruas com camisetas souvenires que deixavam claro para quem pousasse os olhos em mim que eu era turista sem noção e orgulhoso do fato. Foram longas 53 horas que só se encerraram no fim da tarde do domingo quando minha preciosa retornou pra mim. Equilíbrio restaurado, a viagem pode começar de fato, ficando comigo as lições aprendidas: levar ao menos uma ou duas mudas de roupa na mochila menor e jamais, em hipótese alguma, voltar a voar com a Iberia Airlines.

Uma opinião sobre “É preciso estar atento e forte.

  1. Enquanto lia seu texto, fui sofrendo junto com você o transtorno que a falta da mochila lhe causou. Mas no final o alívio. Corajoso você é. Forte, emocionalmente, está se tornando cada vez mais. Quanto a ser atento, nessa caminhada que escolheu fazer, é imprescindível.
    Quando os fatos independem de nós, só nos resta seguir o conselho de Marta Suplicy ” Relaxar e gozar”, é isso aí.
    Beijo Grande, Eu.

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