Estava à toa na vida.

Eis que quando o caos de Marrakech começa a ficar difícil de aguentar, eu subo num ônibus de volta para a costa, para um fim de semana na cidade portuária de Essaouira. As duas cidades não podiam ser mais diferentes. Se fora dos limites da Medina, Marrakech se estende numa grande cidade moderna, com ares europeus e muito espaço verde, pouco existe para além da Medina de Essaouira (que pode ser facilmente circundada por completo em menos de uma hora) exceto por alguns hotéis ao longo da praia. Se em Marrakech é necessário lidar com o clamor constante dos vendedores e artistas, Essaouira é predominantemente residencial, com duas ou três ruas principais tomadas por mercados, mas que te deixam à vontade para apreciar o que oferecem sem pressão.

Sendo pequena, não é uma cidade que oferece um grande número de atividades. É um lugar pra se passar alguns dias sem fazer nada. Caminhar pela Medina, sentar num restaurante e ver a vida local acontecer na sua frente, se surpreender com o número de gaivotas junto dos arrecifes e com os pássaros menores que de quando em quando voam de árvore em árvore às centenas e quase tomam todo o céu, curtir o sol se pôr no mar: esses são os dias em Essaouira. A praia constitui o principal passatempo dos turistas e, embora o vento forte não seja muito ideal para banhos de sol ou mar, ele parece perfeito para windsurfing.

Foi aqui que eu pude finalmente resolver um dilema que me atormentava sempre que eu tentava montar um itinerário de viagem. Quanto a uma tendência a acreditar que, por um lugar ser agradável, eu deveria separar um longo tempo para ele ou correr o risco de não aproveita-lo. Isso simplesmente não é verdade. Eu adorei Essaouira e fiquei feliz por tê-la visitado, mas as quatro noites que reservei para a cidade foram demasiadas. considerando meus planos para o segundo semestre, que deverá ter um ritmo bem mais acelerado, é bom perceber que eu nem sempre preciso de tanto tempo assim para conhecer uma cidade.

Não se trata de visitar um lugar às pressas e não ser capaz de aproveitar a experiência, mas de perceber que há diferentes viagens dentro dessa viagem e nem todas elas implicam em longas estadias. Eu teria aproveitado Essaouira da mesma maneira se tivesse ficado por duas noites apenas. E se isso me oferece um contato apenas superficial, a profundidade viria de passar meses ali e não uma semana a mais.

Eu ainda estava com isso na cabeça quando peguei o ônibus de volta à Marrakech e logo em segguida o trem para Rabat, a capital, o que talvez explique como eu vim a resolver um segundo dilema logo nos dias seguintes.

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