Pareceu-lhe uma boca banguela.

Quando você acha que está se acostumando ao Egito, Alexandria muda as regras. O clima de deserto fica pra trás, substituído pelo vento que vem do Mediterrâneo e também fica pra trás o Egito antigo. Não que Alexandria não seja parte inextrincável do Egito antigo. Poucas cidades do mundo tem uma história rica como Alexandria, tendo conhecido pessoas como seu fundador, Alexandre, o grande; Julio César; Marco Polo; Napoleão; é a cidade de Cleópatra. No entanto, por ter sido interesse de tantos, minha impressão é de que não conserva tanto quanto outras cidades egípcias.

Seu farol, uma das maravilhas do mundo antigo, foi destruído por terremotos. Sua biblioteca foi incendiada. Do passado mais remoto, é possível conhecer alguns resquícios da ocupação romana. Do passado mais recente, é possível conhecer algo da presença árabe na cidade. Dos tempos modernos… bem, há uma nova biblioteca. Mas nada do quilate do que eu vi em outras cidades. A baía quase se fecha em um círculo e é possível vê-la inteira de qualquer ponto. Pedras ocupam a maior parte da costa e são sempre cheias de pescadores, com uns poucos trechos de areia devidamente ocupados por banhistas. Seria algo mais belo se não fosse o lixo acumulado entre as pedras.

Se o calor do deserto deu lugar a dias frescos e noites frias, outras coisas permaneceram as mesmas. Assim como o Cairo, sinais de trânsito são uma raridade e os poucos que existem são ignorados pelos motoristas. Atravessar as ruas faz lembrar algum video-game do início dos anos oitenta. É preciso avançar, retroceder, andar para a direita e esquerda, procurar brechas e se desviar dos apressados para atingir a outra calçada. A falta de semáforos também significa o uso ininterrupto de buzinas. É impossível se fugir do barulho e não há sentido em tentar.

Se destacam na cidade um mercado ocupando a frente da estação de trem, mas que às vezes parece se estender cidade afora, e os vários cafés antigos que ainda ocupam a corniche e onde se pode passar horas apreciando o mar. Talvez minha maior diversão na cidade envolveu olhar a baía e tentar imaginar tudo e todos que já passaram por ali. “Não existe presente nem futuro. Apenas o passado, acontecendo de novo e de novo agora.”

Terminados meus dias em Alexandria, eu retornei ao Cairo apenas para me despedir do Egito. Minha próxima escala, a última antes de rever meu mulato izoneiro, promete ser o início de uma bela amizade.

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