Trazendo de longe as cinzas do velho éon.

Eu deixo Aswan num sleeper train e durmo boa parte das 14 horas de volta para o Cairo. Eu não gosto e tento evitar ao máximo retraçar meus passos, mas a maneira como a rede férrea opera ao longo do rio Nilo torna as idas e vindas ao Cairo inevitáveis. Mas isso tem seu lado positivo.

Em primeiro lugar, eu terminei experimentando diferentes classes de trens. Minha ida do cairo para Luxor ocorrei num trem diúrno, de primeira classe e ar condicionado. São confortáveis, mas “primeira classe” deve vir entre aspas. Exceto pelo ar condicionado razoável, ele não oferece grandes luxos e costuma não ser vendido para turistas. Comprei o meu através do hotel por que preferia pagar 15 dólares e viajar de dia do que os 60 cobrados pelo trem noturno. De Luxor para Aswan, eu não comprei passagem antecipadamente. Apenas me dirigi ao trem, escolhi um vagão e esperei que me cobrassem. Terminei fazendo a viagem num trem de segunda classe, sem ar condicionado, bastante sujo e mais semelhante a um ônibus em alguma periferia de cidade grande. Mas o preço de 1 dólar foi imbatível e a interação (não se pode chamar de conversa quando eu não falo árabe e eles não falavam inglês) com outros passageiros foi bastante interessante. Uma pessoa realmente não precisa de palavras para fazer uma conexão. Por fim, escolhi o trem noturno, com cama, para a viagem mais longa de volta à capital e não é difícil de entender por que tende a ser o mais usado pelos turistas.

Em segundo lugar, dividir meus dias no cairo em duas partes me permitiu conhecer a cidade de uma maneira que eu não teria sido capaz logo que cheguei ao país e ainda estava um tanto receoso quanto ao que me esperava. Eu escolhi um hotel perto das pirâmides da primeira vez não apenas por que elas eram o principal motivo da minha visita ou pela vista incrível, mas também por que me garantia um certo isolamento do caos do centro da cidade. Passadas duas semanas, eu voltei ao cairo perfeitamente aclimatado e capaz de perambular pela Cidade Velha, o chamado cairo islâmico e cairo cóptico, com relativa tranquilidade. Foram dias de mosques e souks e koshari e chá e me perder por ruelas e conversas sobre como o presidente está visitando o Brasil e bater boca com taxistas sobre o valor das corridas. Eu deixava o Egito Antigo para trás e aumentava o meu contato com o islamismo.

E depois, peguei mais um trem para Alexandria.

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