Corra e olhe o céu.

Depois dos imprevistos de Palenque, eu sentia uma necessidade de me manter em movimento. Somando isso com o fato de que eu finalmente tomei uma decisão quanto ao meu dilema americano e que agora eu tenho data marcada para saltar o Atlântico, a minha passagem pela Guatemala foi consideravelmente mais curta do que deveria.

Eu cheguei em Flores com a única intenção de usa-la como trampolim para visitar Tikal e por muito pouco eu não a evitei por completo, mas uma coisa que essa viagem gosta de fazer é me pegar de surpresa. Uma cidadezinha que você cruza de uma ponta a outra em minutos, situada numa ilha no meio de um lago e ligada à terra por um pequeno istmo artificial construído três décadas atrás (mas é tão mais gostoso pegar uma das várias balsas da ilha), Flores não tem grandes atrativos, mas é ela mesma muito envolvente. Esqueça lugares a visitar e atividades a fazer. Apenas escolha um dos restaurantes no oeste da ilha no momento certo e curta o crepúsculo, enquanto o céu varia seus tons, as luzes começam a acender ao redor e os últimos raios de sol refletem no lago.

Como em outros lugares, existe um motivo muito particular que atrai as pessoas para Flores. Minhas últimas ruínas maias também são as mais impressionantes. Nesse sentido, meu itinerário foi perfeito, numa sucessão de experiências que jamais me decepcionava. Chichén Itzá impressiona mais que Tulum, Palenque é mais incrível que Chichén Itzá e, quando você acha que nada vai ter mais o mesmo impacto, Tikal te mostra quão errado você estava. Eu, junto com alguns outros hóspedes do hostel, acordamos às 4h30 e chegamos às ruínas às 6h, junto com o sol. Tikal cobre uma área muito mais extensa que outros sítios e a visita (que não chegou perto de cobrir tudo que havia para ver) levou cerca de cinco horas e, segundo as estimativas do nosso guia, algo como seis quilômetros de caminhada.

Em outras ruínas, quando eu tinha a opção de subir até o topo de pirâmides, eu sempre tentava pesar as possibilidades: de um lado, as pessoas iam me perguntar se eu escalei as benditas e eu queria ser capaz de dizer que sim; de outro lado, eu realmente não queria me tornar notícia internacional como “o idiota que caiu da pirâmide”. Em Tikal, diferente das outras vezes, eu estava com um grupo de pessoas e, por algo que alguns chamariam de incentivo e outros de peer pressure por parte do israelense, do casal de espanhóis e dos austríacos, eu terminei tomando parte numa sequência de escaladas freudianas em que todos tínhamos que chegar no topo de casa estrutura que se via pela frente. A última delas, até alguns anos atrás, ainda era a construção mais alta do país. Do alto, um mar de selva até onde a vista alcançava.

Em comemoração ao feito, passei o dia seguinte sem me levantar da cadeira no pátio do hotel, com Alexandre Dumas numa mão e uma limonada na outra, juntando forças para mais uma viagem de ônibus noite adentro para Antígua.

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