Tempo, tempo, tempo, tempo.

Antes de começar essa viagem, quando passava meus dias no casulo de uma rotina previsível e confortável, o tempo passava de forma diferente. Uma semana era algo demorado. Um mês era uma medida de tempo abstrata baseada em quantos dias meu salário precisava durar. Um ano… um ano era uma imensidão. Um voo de três horas era demorado e um voo de doze horas era um acontecimento raro que demandava muito planejamento.

É curioso quão rápido a nossa perspectiva muda. Eu comecei essa viagem sabendo muito bem que ela implicaria em longas horas dentro de aviões, ônibus, trens, longas horas andando. Eu sabia também que eu teria que definir um número de dias para cada lugar por que deveria passar, às vezes sem ter uma noção muito clara de quantos dias são apropriados para esta ou aquela cidade. Escolhendo ficar poucos dias, eu correria o risco de não aproveitar a oportunidade, de me obrigar a uma visita apressada por lugares que mereciam mais do meu tempo. Escolhendo dias demais, eu poderia me desapontar ao perceber que meu tempo seria melhor gasto em outro lugar. E existem, obviamente, argumentos a favor de descartar por completo a ideia de um itinerário.

O ritmo de viagem também teria um impacto direto no orçamento, razão pela qual os primeiros seis meses de viagem são algo bem mais lento e tranquilo do que os meses que virão depois. O México, embora incrível, não estava entre minhas prioridades, mas será o país em que passarei mais tempo que qualquer outro. A verdade é que há cidades que demandam vidas inteiras para se conhecer verdadeiramente. Há cidades que não exigem mais que poucas horas.

O que eu não esperava era perceber quão rapidamente viagens de ônibus de dez horas de duração passariam a ser encaradas com normalidade. Vinte e quatro horas num trem? Sem problemas. Um voo com três escalas, chegando no destino dois dias depois? Tranquilo. Numa estranha contradição, ao mesmo tempo em que um dia esticava suas horas para encaixar muito mais do que meus dias em Brasília pareciam capazes, o dia seguinte, passado apreciando a paisagem da janela de um ônibus, terminava numa velocidade impressionante que me deixava sem entender para onde foram as horas.

A contradição, é claro, se estende ao meu planejamento. De repente, um ano e meio parece o tempo de um piscar de olhos, e minhas tentativas de montar um itinerário em que eu jamais passaria mais do que uns poucos dias em cada cidade uma tarefa delicada. Na maioria das vezes, eu não passarei tempo suficiente para num mesmo lugar para conhece-lo com alguma profundidade ou tirar proveito de todas as experiências que ele tem a me oferecer. Assim como nem todas as experiências serão de meu interesse.

Mas é bom perceber, a cada dia, o quanto meus sentidos parecem prontos para absorver o que há ao meu redor e o quão elástico meu tempo mostra ser. Eu já fiz viagens de poucos dias no passado e sei que o que as torna memoráveis, mais do que qualquer outro fator, é o quão aberto eu estou para receber o que me aguarda.

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