É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Eu cheguei em Mérida no fim da tarde da terça-feira de carnaval e o que eu achei que ia ser uma caminhada tranquila até o hostel foi bloqueada por um desfile que cortava a cidade ao meio e reunia uma multidão. Depois do check-in, fui caminhar entre os festejos, apreciar as pessoas indo e vindo e tentar superar o estranhamento de um carnaval sem samba.

Mérida tem seu lado agradável na arquitetura, nos restaurantes de comida yucateca, no mercado municipal (que um amigo suíço achou algo muito exótico e eu algo muito próximo do que vejo no Brasil – finalmente entendo por que esses mercados constam de guias de viagem) e, é claro, na sua proximidade de ruínas maias. Já o lado feio da cidade está bem representado num trânsito hostil e barulhento. E quão engraçado é quando, nas lojas de souvenires que rodeiam a praça central, você vai à procura de um imã de geladeira só pra perceber que, no nome MERIDA, o espaço que divide as letras I e D começou a borrar, unindo as duas e desejando MERDA para qualquer brasileiro incauto.

Se eu não vi nada de particularmente bonito no carnaval da cidade, os dias que se seguiram à quarta-feira de cinzas permaneceram recheados de apresentações de música e dança e teatro em praça pública. Confesso que incomoda a impressão de que toda música mexicana parece ter parado nos anos 50. Minha procura por algo mais contemporâneo sofreu seriamente quando um mexicano (que morou uns meses no Brasil e cujo português supera em muito meu arremedo de espanhol) comparou toda música mexicana recente à música sertaneja brasileira e disse não ser capaz de pensar num equivalente nacional à MPB.

Concluí minha estada em Mérida percorrendo a chamada Ruta Puuc, visitando, num espaço de 9 horas, os sítios arqueológicos de Kabah, Sayil, Labna, X’lapak e Uxmal. A tour dedicava apenas meia hora para cada um dos sítios, exceto por Uxmal, bem mais extenso, que permitia mais de duas horas de visita. Sayil, em particular, é algo impressionante e Uxmal é uma versão interativa de Chichen Itza. Ando com dificuldades em formar uma opinião sobre permitir aos visitantes contato direto com as ruínas. Poder subir seus degraus, passar sob suas arcadas e desfrutar do ambiente de uma forma mais íntima é uma experiência e tanto, mas o ser humano é o ser humano e dar a ele essa liberdade significa expor esses lugares a todo tipo de risco, de modo que eu consigo entender e apoiar os sítios que optam por limitar a visitação a olhar monumentos a distância. Todos os sítios da Ruta Puuc permitem ao visitante perambular por quase toda parte, mas até Uxmal vê necessidade na ocasional placa de “por favor, não sente na relíquia histórica”. Tão triste que tal aviso seja necessário.

Eu deixei Mérida ontem, 19 de fevereiro. Foi quando a vida decidiu que minha viagem estava progredindo demasiadamente conforme os meus planos e que já passava da hora de sacudir um pouco as coisas com imprevistos em cima de imprevistos.

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