La espuma blanca de Latinoamérica.

Cancun… tem quatro letras a mais do que devia. Desculpe, mas quilômetros e quilômetros de hotéis numa competição freudiana por quem tem a maior piscina não me impressiona. Na verdade, me deprime bastante. Minha opinião da cidade se formou no caminho do aeroporto para o albergue, que sendo albergue não ficava na zona hoteleira, um tipo de Las Vegas com praia que forma a área turística da cidade, mas no centro. De carro pela zona hoteleira, é impossível de se ver o mar. Os resorts atuam como uma muralha, bloqueando o acesso àquela que é a única atração do lugar, exceto por um ou dois pontos estratégicos. Aparentemente, eu tenho suficiente cara de turista para ser capaz de atravessar um hotel até a praia sem ser chamado a atenção (o que, aliás, é um pouco triste), mas essa política basicamente bloqueia a praia para a população local.

Se existe uma coisa nesse mundo que deveria ser democrática… dentro dos resorts, o elitismo poderia ser a regra, mas uma vez que você pisa na areia da praia (que é sempre pública, segundo a lei mexicana. eu verifiquei), a história deveria ser outra. O brasileiro é apático quanto a muita coisa, mas eu gosto de pensar que, se amanhã anunciassem que Porto de Galinhas está fechada para pernambucanos ou Ipanema não aceita mais cariocas, prefeitos teriam suas cabeças decepadas no dia seguinte.

Mas a gente entra na onda e adere ao sistema e logo eu estou diante do mar azul mais azul que eu já azul na minha vida. Eu tenho que admitir que aquela visão é algo de maravilhoso (embora a única coisa mais branca que a areia fossem as pessoas sobre a areia). Ontem, eu comentei meu desapontamento com uma pessoa querida, e sobre como era o mar mais lindo que eu já tinha visto, mas não passava disso. Ela, muito sabiamente, respondeu “mas isso já é muito. pode até ser tudo!” E ela tem razão. E quando a água alisa meus calcanhares, não é difícil esquecer o amontoado de resorts nas minhas costas, me deliciar com o barulho das ondas (algo que sempre teve um profundo efeito em mim a vida inteira) e perceber que, de fato, isso pode ser tudo sim.

Mas uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, como sabemos. E Cancun – a cidade – é uma dondoca recauchutada metida à gostosa sem nada a oferecer de interessante depois que a gente sai da água (embora o museu maia seja bem legal). Eu admito que não experimentei Cancun da mesma forma que uma pessoa planejando suas férias em Cancun experimenta. Minha perspectiva talvez fosse outra se eu visse Cancun de dentro de um resort, tendo toda uma estrutura de lazer e mimos me sendo oferecida diariamente, mas eu já tive essa experiência e não sai dela uma pessoa mais feliz. O que resgatou Cancun das cinzas de uma semana perdida pra mim foi justamente o que o albergue oferecia e que um resort jamais ofereceria da mesma forma: o canadense, o americano, a espanhola, o mexicano, o francês, a italiana, o coreano. Essa é a grande atração de uma viagem. Essa é a experiência que vale a pena. Transformar um ‘olá’ estranho em um sorriso amigo. Não parece tanto assim… mas pode até ser tudo.

3 opiniões sobre “La espuma blanca de Latinoamérica.

  1. Veja por outro lado: os resorts geram emprego para a população e desenvolvimento para a cidade. Aposto que eles preferem ter turismo do que nao ter!
    Sai da bolha…

  2. Veja por outro lado: os resorts geram emprego para a população e desenvolvimento para a cidade. Aposto que eles preferem ter turismo do que nao ter!

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