Até nas coisas mais banais.

Numa viagem, nem todo dia vai incluir uma ida a Machu Picchu e a semana seguinte a uma ida a Machu Picchu vai necessariamente parecer um tanto anticlimática. Esse pensamento ocupou minha cabeça nos meus primeiros dias em Arequipa, que, embora interessante ao seu modo, não atingia as expectativas que apelidos como ‘a Paris peruana’ me traziam. Assim como Lima e Cusco, também Arequipa tem uma Plaza de Armas agradável aos olhos do visitante, uma catedral imponente, um ar agradável mesmo ao se caminhar na chuva numa rua de pedestres apressados.

Diferente de Cusco, a cidade é voltada menos para o turismo e mais para seus próprios habitantes. Diferente de Lima, é melhor preservada e mais orgulhosa de sua herança colonial. O Monastério de Santa Catalina, em particular, foi uma maneira deliciosa de passar algumas horas. Andando pelas ruas do lugar, era fácil se deixar abraçar por uma certa paz de espírito, e, ao entrar nos diversos aposentos, alguns dos quais eram mobiliados com camas, cadeiras, pinturas; enquanto outros (de forma mais pungente) mostravam, em espaços vazios, a cama que costumava estar lá ou as manchas de fuligem onde se costumava acender o fogo. O canto gregoriano sendo tocado incessantemente nos alto-falantes era um pouco de exagero e eu poderia passar sem (eu sempre achei que minha imaginação fazia um trabalho melhor nessas horas do que encenações ou outras tentativas mais óbvias de recriar um clima de época – mais sobre isso em outros textos), mas ainda assim foi uma tarde bonita.

Mas não era um Machu Picchu. Foi então que eu me dei conta, acho. Tudo é uma questão de como vemos as coisas. Não que seja possível começar a ver Arequipa como se fosse uma cidade perdida dos Incas, mas quando eu comecei a dar a devida importância para as pequenas coisas, os detalhes sutis que diferenciam o ‘onde eu estou’ do ‘de onde eu vim’, cidades antes perdidas para mim foram aparecendo. As diferenças curiosas do idioma, descobrir numa conversa casual que ‘Casa de Moral’ não tem qualquer coisa a ver com bons costumes e sim com a moreira plantada no pátio central, a maneira como as pessoas se aglomeram diante de bancas de revista para lerem as primeiras páginas dos jornais, a insistência dos taxistas de que a mochila nas suas costas indica que você deve querer uma corrida, as consequências para um estômago desacostumado que resolve combinar ceviche e pisco numa mesma refeição, a maneira como el Misti (o vulcão ativo que é o principal cartão postal da cidade) teimava em se esconder sempre que eu tinha minha câmera por perto…

Machu Picchu foi algo marcante e eu espero ter outros dias igualmente majestosos nos próximos meses, mas é bom saber que, entre um e outro desses dias, se eu souber olhar, é possível encontrar pequenos e tímidos Machu Picchus em cada esquina.

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