Aquela velha opinião formada sobre tudo.

Eu ando pensando muito sobre bolhas. Não, não as dos meus pés. Todos vivemos em bolhas, algumas maiores que outras, algumas sutis, outras óbvias, mas bolhas ainda assim. Bolhas dentro de bolhas. Pertencer a uma determinada classe social te coloca numa bolha. Há lugares que você não vai frequentar e atitudes que você não vai ter e desejos e medos que você não vai sentir por conta disso. Exercer uma profissão tem o mesmo efeito, te circundando de colegas com histórias parecidas a sua. Duas escolas de pensamento surgiram dentro da sua profissão? Não se aflija! Dividimos a bolha em duas e você nem precisa ter contato com o outro grupo, se não fizer questão. Seguir uma religião, torcer para um time, gostar de surfar, ser alérgico a pelos de gatos… bolhas, bolhas, bolhas! Algumas não te deixam fazer a barba, outras não te permitem se vestir com certos trajes ou ser amigo de certa pessoa ou… Bolhas, por sua própria natureza são restritivas, existem para nos privar de experiências; são transparentes, sem que sequer as notemos na maioria das vezes; e são fáceis de se estourar, ou, melhor dizendo, são apenas tão fortes quanto nós permitimos que sejam. Bolhas são populares por bons motivos. Há segurança dentro de bolhas, há camaradagem, há status e reconhecimento e outras coisas que podem ser extremamente importantes para muita gente.

Era de se esperar que viajar fosse um método infalível para se estourar a bolha, mas não é bem assim. É apenas mais uma bolha. Qualquer cidade que receba um número razoável de turistas vai desenvolver uma bolha especialmente voltada para eles. Dentro da bolha, os restaurantes tem cardápios bilíngues, há uma loja de souvenires a cada cinco metros, Todos estão acostumados a estrangeiros e são capazes de uma conversa básica em qualquer língua imaginável,. Há uma sinalização clara que indica onde você quer ir, já que você está indo pro mesmo lugar que todo mundo. Essa bolha não cobre a cidade inteira, claro, mas não é difícil manter a ilusão. Guias de viagem sequer vão mencionar a área fora da bolha se puderem evita-la. Em mapas turísticos, depois de certo ponto, a cidade simplesmente se desfaz em nada. Mas Florença não é somente seu centro histórico, do mesmo jeito que Brasília não é somente seu plano piloto.

Estoure a bolha e vai perceber certas coisas mudarem ao virar de uma esquina. Há menos policiamento, as ruas estão mais sujas, os rostos americanos, europeus e asiáticos deram lugar a uma uniformidade que faz com que você se destaque na multidão feito político honesto no Congresso Nacional… nem tudo são flores fora da bolha. Por que deixar a segurança da bolha então? Por que se trata de uma experiência tão mais autêntica quanto o que se passa dentro da bolha é maquiado. A bolha é muito parecida em qualquer lugar. É como se você nunca realmente saísse de casa. Como estar sempre na mesma viagem, onde só mudam os pontos turísticos. É preciso cautela fora da bolha. Mas, se você se der ao trabalho, as recompensas são muitas, de um prato mais saboroso a uma conversa mais sincera a uma experiência mais marcante e a sorrisos mais genuínos. No final das contas, talvez o item mais importante para se levar na bagagem seja um alfinete.

6 opiniões sobre “Aquela velha opinião formada sobre tudo.

  1. Ai lindo! Que delícia ler isso de você.

    Nunca se esqueça que o segundo item mais importante de se levar na bagagem sou eu. Levando em consideração o tamanho e o peso, ainda é mais simples do que levar um alfinete.

  2. Por onde andará Brunosvky?! Que sorrisos, ruas e comidas de fora da bolha ele está conhecendo? Colombianas?!? Estará ele conseguindo sobreviver à falta de Cláudia?
    Tô curiosa… Bjs

  3. Adorei!!! Tem horas que quero muuuito estourar minha bolha, masssssssssss outras, prefiro perder o alfinete. rs!!!
    Muito bom!!!
    Coloque mais fotossss.

  4. Alfinetes infinitos para que essa jornada seja regada de autênticas experiências.Experiências reais…. verdadeiras, genuínas e sem falsas máscaras de proteção que limitam nossos sentidos.

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