Que sem ela não pode ser.

A viagem de ônibus de 21 horas de Lima para Cusco se dividiu em uma tarde descendo o litoral peruano, uma noite de sono difícil e uma manhã encantadora. Em primeiro lugar, o litoral peruano (ao menos ao sul de Lima) se resume a um cenário tedioso de montanhas de areia de ambos os lados da estrada até onde a vista alcança com o ocasional vislumbre do oceano. Mas não faça as malas ainda imaginando lençóis maranhenses. A única semelhança entre essa desolação e as praias do nordeste brasileiro é que elas estão no mesmo planeta. Estamos falando de montes de areia escura, que se estendem para muito além do litoral, cercadas em propriedades privadas dando a entender algum fim comercial, muitas delas à venda, pontuadas por ocasionais postos de gasolina e casebres humildes. Eu tento pensar numa palavra melhor do que lúgubre e não consigo.

O sono difícil vem do fato de que eu nunca fui capaz de dormir em movimento. Algo para se tentar mudar nessa viagem. Na marra, se for preciso. Mas uma vez que o sol nasceu, e que nosso trajeto saiu da costa para o interior e em direção aos 3400 metros de altitude de Cusco, o visual mudou por completo. Enquanto o litoral não mostrava vegetação nenhuma, no interior ela reina suprema. Com a guinada para o interior, a estrada passa a acompanhar o rio. Com o rio, vinha o verde. E com o verde, vinham campos de cultivo, pastagens, vacas, galinhas, porcos, jumentos, ovelhas, mais casas humildes, propaganda política e anúncios da Claro. (Sim, a maldade chega em toda parte.) Tudo num cenário de montanhas e neblina e floresta densa que oferecia uma prévia do que ainda estava por vir nos dias seguintes.

Chego a Cusco a tempo de receber Claudia no aeroporto e matar uma saudade de meses. Essa moça é tão necessária para minha existência quanto oxigênio, e, se este é uma iguaria rara em Cusco, rever minha amiga querida é reenergizante. Cusco (bem, o centro de Cusco) é algo muito belo de se ver e se torna mais belo aos olhos da Claudia. Foram dias de conversas, risos, fotos, chás de coca, passeios por ruas estreitas e muros seculares, uma catedral orgulhosa e uma praça com vistas majestosas. A predileção da minha amiga por boinas e ponchos faz de Cusco um paraíso, e quando ela cisma de entrar numa loja que vende vestimentas locais, pode ser difícil de distingui-la entre as dezenas de ponchos que cobrem as paredes. A cidade nos tira o fôlego de mais de uma maneira. Se é impossível andar pelas ruas da cidade sem ser alvo de todo tipo de oferta, desde guias turísticos até senhoras com filhotes de lhama oferecendo-as para fotografias, a cidade ainda parece conseguir manter seu jeito particular, embora sobrecarregada de turistas.

Depois de duas noites nos adaptando à altitude, pegamos o trem para Águas Calientes, escala obrigatória no caminho para aquela que é a maior atração da região de Cusco, o maior orgulho dos peruanos e a pérola mais preciosa da América do Sul.

Uma opinião sobre “Que sem ela não pode ser.

  1. Meu querido amigo!! Sabia que iria adorar ler sobre sua aventura!!! Estou adorandooo!!! Continue!!! Só está faltando dizer se a mochila está sendo funcional ou não!! Ela cheia deve ser bem pesadinha e ainda sem muito oxigênio…. Rs!! Beijo grande Fernanda
    Um dia relate sobre o que está lhe ajudando e o que não… em termos práticos… O que valeu a pena levar e o que foi desnecessário… (curiosidade de alguém pragmática!!)

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