Vai trabalhar, vagabundo! (ou… The love you take.)

Era inevitável, eu suponho. Toda viagem chega ao fim, todo domingo vira segunda-feira e não importa quão bom o sorvete, o fundo da taça chega sempre rápido demais. Mas o gosto bom na boca ainda demora mais um pouco pra desaparecer e voltar pra casa não é a mesma coisa que nunca ter partido.

Foram 153 cidades, espalhadas por 34 países, 4 continentes e pelo menos 5 religiões num período de 20 meses. Foram hostels, hotéis, quartos de hóspedes, noites em estações, portos e aeroportos. Foram viagens de avião, trem, ônibus, navio, táxi, caronas de carro, garupas de moto, uma canoa aqui e ali e muito bater perna. Foram imprevistos, contratempos, mudanças de planos, ajustes orçamentários, surpresas boas e ruins. Foram metrópoles, vilarejos, ilhas, parques nacionais, sítios arqueológicos, nascentes, poentes, maravilhas da natureza e patrimônios da humanidade. Foram amizades instantâneas, transitórias e eternas.

Talvez eu seja a mesma pessoa que eu era quando isso tudo começou, talvez não. Talvez qualquer mudança que tenha se operado em mim seja automaticamente cancelada no retorno à velha rotina e as lembranças desse período ganhem um tom meio irreal, de algo que aconteceu com outra pessoa. Eu não sei. Eu espero que não. Eu espero levar esses 20 meses dentro de mim onde quer que eu vá para que, quando a claustrofobia do escritório parecer insuportável, eu seja capaz de fechar os olhos e ser transportado para o Taj Mahal, para Machu Picchu, para as Pirâmides de Giza, para a Grande Muralha da China, para o jardim em frente a meu quarto em Bali, para a Rue de Valois em Paris, e que isso conceda alguma leveza aos meus dias.

Algumas mudanças, no entanto, são mais fáceis de nomear. Eu me sinto capaz de ir a qualquer lugar do mundo, não importa o país ou idioma ou cultura e me adaptar ao que encontrar. E eu sei que há violência no mundo, mas a maioria das pessoas ficaria surpresa ao perceber quão seguro ele pode ser, quão abertas as pessoas são se você se esforçar para entende-las e (infelizmente) quão extenso é o alcance da indústria do turismo. Hoje, eu ainda adoro uma cama confortável, mas eu posso dormir num quarto com vinte desconhecidos ou no chão de aeroporto sem problemas. Hoje, eu aceitaria uma carona, mas não teria objeções a andar alguns quilômetros até onde quero chegar.

Da viagem, eu já sinto falta de reservar meu próximo alojamento ou pesquisar sobre a próxima cidade ou me preocupar com o próximo visto ou em aprender a expressão local para ‘por favor’ e ‘obrigado’. Uma grande mudança em mim, aliás, é um certo sentimento de fraternidade para com qualquer um com uma mochila pesada nas costas, como se fossemos membros de uma sociedade secreta cujos ritos e tradições vão sempre fugir à compreensão dos demais. Qualquer mochileiro, de hoje em diante, tem em mim um amigo, mesmo que não saibam disso.

De tudo fica um pouco, como disse o Carlos. Em todo lugar por que eu passei e em todas as pessoas que eu conheci, eu deixei um pedaço meu. E trouxe um pouco delas comigo, na eterna esperança de assim me tornar inteiro. Então a viagem acabou. E eu estou voltando pra casa. A viagem acabou e eu vou ter a alegria de rever as pessoas que eu amo e dormir em minha cama e acordar em minha casa. A viagem acabou, mas eu comecei esse texto tentando explicar sobre as coisas que eu aprendi nesses últimos meses. Pois aqui está a minha maior descoberta: A VIAGEM NUNCA ACABA.

Finis Opera.

Se não sabes onde vais, porque teimas em correr?

Os últimos dez dias de viagem não fizeram justiça ao último país do roteiro. Como eu já experimentei em outros lugares, o território pequeno de Portugal engana quem acha que há pouco para se conhecer. Eu terminei deixando muito de fora: o extremo norte, o algarve, pequenas cidades como Nazaré, Batalha, Fátima… Muito vai ficar pra uma próxima vez. E vai haver uma próxima vez. Portugal é apaixonante… é muito “fixe”. E os laços com a cultura brasileira (pra melhor e pra pior) vão muito além do idioma e de uma história conjunta. Minha primeira escala foi o Porto (assim mesmo, com artigo), que também foi minha favorita. Como a maioria das cidades do país, o Porto tem altos e baixos, e o visitante passa metade do seu tempo subindo e descendo ladeiras. Olhe para cima e vai ver a catedral da Sé dominando o cenário, olhe para baixo e vai ver a rua seguindo direto até a Ribeira, a passarela de pedestres que segue ao longo do rio Douro. Siga até o fim e o Mosteiro de São Francisco me encantou num momento da viagem em que eu não achava que eu ainda era capaz de me surpreender. O porto tem uma atmosfera tão agradável, pela arquitetura, pelo rio, pelo vinho, pelas pessoas, que eu podia me ver morando ali feliz, e segui viagem com algum pesar.

A escala seguinte foi uma passagem rápida por Coimbra, famosa como cidade universitária. E a universidade é a grande atração da cidade. Não é particularmente grande, como Coimbra também não é, mas a área da universidade inclui duas catedrais, diversas faculdades, escadas e mais escadas e, ao redor da sua praça principal, a Biblioteca Joanina e a Capela de São Miguel são tão belas que me aborreceu muito não ser permitido tirar fotos de seus interiores. Depois de Coimbra, eu passei por Sintra. No início, minha intenção era visitar Sintra como uma day trip de Lisboa, há quarenta minutos de distância, mas o lugar parecia merecer um pernoite. Eu ainda não consigo imaginar como deve ser exaustivo tentar visitar o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e a Quinta da Regaleira num único dia. Eles ficam, respectivamente, a uma caminhada de 50, 30 e 15 minutos do centro da cidade. Uma surpresa curiosa foi que eu imaginava Sintra como um equivalente português de Versailles. Um antigo retiro da nobreza convertido em atração turística. Eu imaginava uma cidade de um certo requinte. O que eu encontrei foi algo parecido a uma comunidade hippie. mas os castelos e palácios são incríveis mesmo assim.

A viagem terminou em Lisboa. Que não é mais bela que o Porto, nem impressiona tanto quanto Sintra, nem tem a jovialidade de Coimbra, mas é impossível não se sentir em casa. O bairro de belém é coalhado de pontos turísticos, com a Torre de Belém e o Padrão dos descobrimentos; a Alfama ainda guarda resquícios mouros, com o castelo de São Jorge; a praça central do Róssio, com a estátua de Dom Pedro IV (o nosso Dom Pedro I); o Chiado; a cidade baixa… Comer bacalhau nunca mais vai ser a mesma coisa. Da viagem, agora, só me restava a volta pra casa. Mas o blog ainda tem coisas pra contar.

Arrastando o meu olhar como um ímã.

O calor, o calor, o calor! O verão europeu não fica devendo nada ao Brasil! Com temperaturas chegando perto dos 40 graus, o planejamento dos meus dias passou a levar em conta a posição do sol no céu. E minhas noites envolvem debates com colegas de dormitório sobre o ar condicionado.

Eu sinto dificuldades em falar sobre Madrid… ela sempre vai sofrer na comparação com Barcelona. Não há como impedir. Mas quando a gente abre mão de esperar que a capital espanhola seja tão vibrante quanto sua irmã catalã, ela começa a encantar. Plaza Mayor, o marco zero da cidade, é uma praça linda logo no início do dia. Puerta del Sol, nem tanto, mas é animada. Uma tarde no Parque do Retiro sob uma sombra com um bom livro (terceiro volume de a Song of Ice and Fire lá vou eu) é perfeita. Mas o que mais me atraia à cidade, anos antes de pisar nela, eram seus museus. O Museu do Prado era um dos meus objetivos para essa viagem desde que eu aprendi o nome Goya (na verdade, da minha lista de melhores museus do mundo, eu só preciso de uma viagem aos Estados Unidos para visitar todos) e se eu não achei o Museu Reina Sofia no mesmo patamar, lembrar de quando eu estava diante da obra mais famosa do lugar ainda me causa arrepios. Guernica é… Guernica é necessária, eu suponho.

Antes de deixar a Espanha, passei ainda por Salamanca. Eu havia ouvido muitos elogios sobre a cidade, mas a verdade é que a incluí no roteiro somente para dividir meu trajeto para Portugal ao meio e me poupar a longa viagem de ônibus. Que escolha feliz. Que pena não ter separado mais tempo para a cidade. Não que ela exija muito tempo para conhecer, está longe de ser uma cidade grande, ao menos no que diz respeito ao centro histórico. Mas é um lugar tão incrível e envolvente que você não quer ir embora. Eu certamente não queria. As grandes atrações da cidade são a praça central e as duas igrejas (velha e “nova”), tão imponentes que podem ser vistas de quase qualquer ponto da cidade. Mas é a cidade em si que apaixona, pela cor de seus muros, a beleza de suas ruas…

Um fato que eu venho constatando nos últimos tempos é que eu preciso viver num lugar com algum senso de história. É possível que morar numa cidade de cinquenta anos de idade me faça mais mal do que eu me dava conta. Eu preciso de história no meu dia a dia. E Portugal ia me mostrar que eu preciso também do barulho das ondas.